01/30/2006

Navalhas

Pela manhã ela abriu os olhos. E dentro das mãos fechadas: asas. E havia um choro sem sentido. E palavras se ouviam de longe. O coração estava em brasa. Chagas. A música cessara, mas não lá dentro. Estava nublado. Inclusive seus olhos. E seus passos tombavam em cima de nuvens fofas e de imagens de céu que ele pintava para ela. Quando ainda estava ao seu lado.

01/23/2006

Madrugada

medium_kathy.jpgVento No Litoral
Letra: Renato Russo
Música: Dado Villa-Lobos/Renato Russo/Marcelo Bonfá

De tarde quero descansar, chegar até a praia
Ver se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras.

Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora

Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que eu tenho mais saudade,
Quando olhávamos juntos na mesma direção.

Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim?

Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo.

E quando vejo o mar
Existe algo que diz:
"-A vida continua e se entregar é uma bobagem."

Já que você não está aqui,
O que posso fazer é cuidar de mim.
Quero ser feliz ao menos.
Lembra que o plano era ficarmos bem?

"-Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos."
Sei que faço isso pra esquecer
Eu deixo a onda me acertar

E o vento vai levando tudo embora.

 

Fiz planos de dormir até tarde, mas acordei ao som de música. Às três da manhã uma sequência de Niña Pastori, Legião Urbana, Totonho Villeroy e Jorge Drexler me tirou da cama para escrever. A janela próxima, me lembrou mais uma vez da nossa infância e dos trabalhos de artes que fazíamos para o Itamarati. Naquela época eu pensava que o nosso Itamarati era o mesmo que o de Brasília. E tu tinhas as tarefas de artes que eu mais gostava. Os trabalhos de argila, a água dissolvendo o papel colorido, os desenhos com tantas linhas curvadas e coloridas. As colagens com imagens de revistas velhas. Eu me lembro de um trabalho de geografia em que uma agulha de tricô atravessava uma laranja para representar a terra em movimento. A persiana do meu quarto divide o céu em estreitas faixas. Através dessas faixas, na penumbra do quarto, eu observei as nuvens movendo-se. Minha janela então parecia um dos teus trabalhos de arte, aqueles que uma foto qualquer era recortada em tirinhas e estas todas remontavam uma figura maior, e o papel branco e avulso inchava a imagem. Minha janela agrandou a saudade como se fosse uma daquelas imagens. E fez com que os galhos das palmeiras que vejo se dividissem para te alcançar. E então pensei em te escrever quando tocou Vento no Litoral. Havia mais de dez anos que não escutava essa canção. E de uma época remota da nossa infância vieram também outras lembranças. Muitas delas cômicas. E também veio a vontade insana de escrever o que tem se acumulado aqui dentro. E as palavras novas que ainda não busquei, as dores contidas, as dores ausentes se fizeram presente. Foi então que, ouvindo Nina Simone, te escrevi. Para te contar que estou deixando. E minha nova sintaxe, e meus novos frios, e ventos e arrepios me acordam. Para conversar contigo, embora tu não saibas. Little Girl Blue.

 

Imagem: Kathy. Artist: Lora Shelley.

01/22/2006

Gotas de mar

Cada gota se partiu e deixou sal e mar na superfície escondida da minha língua. E ouvi cada estou-ro e esperei por cada gosto novo e pela salinidade daqueles pequenos e imensos oceanos cor-de-rosa. Lâminas prata encobrindo, saciando. Por vez primeira, eu não estava no mar: era ele que estava em mim.

Enquadramento

Eu nunca soube como te enquadrar na minha vida. Não havia espaços, nem ar, nem água da chuva. Não havia mais distâncias. Os caminhos estavam todos sorvidos. E agora sem dizer silêncio, sem abrir nenhuma fresta, sem nesgas de luz: enxergo. E te enquadro na parede mais distante, mais vazia. Mais esquálida. E te observo de longe, e te enquadro passado. Encontrei o ritmo de estar em ti. E a pausa necessária de me esvair e me enquadrar distância.

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01/16/2006

Dúvida

Dúvida de estar só

por estar presente e

se ter nos braços

Por ter esperaça

Gana, vontade

Ardor

Se sentia num vácuo

Sem

E agora tudo é grávido

tudo reluz

tudo está tão oni

não se sente só

está em si

E isso pela primeira

vez

basta 

01/14/2006

Acompanhar

Tínhamos sede

e voltávamos sempre ao mesmo córrego

Eu trazia teu corpo frágil e miúdo 

junto ao meu abraço

pois não te queria deixar só de mim

Tu talvez buscasses água

Eu era feito de beijos

moléculas de ti 

 

01/11/2006

Parece

Perece o texto aquele que parece-se tanto contigo. Com a mesma fome, a mesma gana. Parecem-se os dois. O texto tem os mesmos contornos de teus olhos e o mesmo tempo. Vocês perecem para mim. Em espaços de tempo que delimitamos como dias, ou momentos, ou horas. Vocês perecem. Um amarela em meu colo, resta. Descansa. Resseca. Tu pereces dentro de mim. Perecem tuas palavras tão gastas de uso vão, tuas pinceladas de amor afobado, equívoco que chamaste de amor. Tua voz abafada na mensagem ouvida até que parecesse também perece. Tu pereces escondido, sem abalos. Sem encontros. Tu pereces na ausência desconhecida, sem sabor exato, sem magnitude. O conto dentro do livro que tanto li e reli parece. E perece: esquecimento vasto e indolor. Não há datas: não burocratizo que vocês se pareçam. E.

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01/08/2006

Kandinsky e turbilhões

medium_the_garden_of_love.jpgNão lembro quando vi por vez primeira um quadro de Kandinsky. Pode ter sido em Los Angeles ou em Nova York. Pode ter sido em Porto Triste, pode ter sido em Porto Alegre. Pode ter sido com frio, com calor. Com saudade. Posso ter estado música naquele dia. Posso ter sido um poema. Posso ter sido um parágrafo de um livro que jamais esqueci. Pode ser que eu estivesse Exílio. Imensa. Tamborilante. Mas é certo que carregava em mim vários mosaicos. Vários pontos e retas. Curvas. Carregava faltas e datas. Números, ladrilhos. Carregava afagos de mãe. Mãos de delicadeza, sorriso novo. Cores internas. Eu queria tocar Kandinsky para sentir o calor da cor. Suas formas se alteram quando meus olhos encontram seus contornos de sonho e névoa. Há um pouco de Piazzola em seus quadros e eu me volto ao sul. Há Ruas em suas telas. Havia Ruas em mim naquele dia. Vive em mim um pouco de cada um deles. Anos de solidão, anos de luzes diretas e esferas e elos e sustos e um pouco de tudo e de nada. Um pouco de Pagu. Um pouco de salgado-doce. Esperança. Posso ter sido Kandinsky por alguns segundos. E ter sido ponte entre os mosaicos que estavam em mim e os dele. Houve um sol se pondo e uma música vermelho vida. Era de rodopios meus olhares. Pois eu virava para vê-lo melhor e revê-lo já então com outros olhos e com os mesmos para sentir de novo a intriga, a nebulosidade. As incógnitas. Não sei precisar quantas de suas telas mergulharam em mim desde aquele dia. Quantas pessoas passaram por mim e o levaram de mim, sempre deixando-o comigo de uma forma diferente. Sob a mesma forma. Quantos terão me achado por acaso e lido meu texto até o fim. Tentando achar um pouco de cor, um tanto de alívio. Quantos dos russos que conheci em Los Angeles haviam de se interessar por aquelas escalas de pigmentos e aqueles sonhos impressos. E como terá sido o diálogo final no fim do livro, que dizia que um avião cruzava o céu e eles deitados, um ao lado do outro, misturavam cores. --- Há em mim pigmentos advindos de incessantes buscas. Há em mim o longe que não toca. Nem Kandinsky, nem mosaicos. Passeio múltiplo. Turbilhão: jardim de amor. Colheitas e plantios. Dias absolutos, esquecidos e lembrados. Kandinsky e Ruas.

Imagem: The Garden of Love. Fonte: Metropolitan Museum of Art.

01/07/2006

A Dama de Ouro: Elis Regina

A Dama do Apocalipse (Nathan Marques / Crispim Del Cistia)

Branco por cima e o negro de um sorriso herói
Trancam-me a mente e eu nego o quanto a dor destrói
Rasgam-me o sonho e o mal me põe na vida
E a vida me faz sem medo
Nos diademas, pragas, anjos de neon
Nos holocaustos trompas, flexas, megatrons
Rasgam-me a terra e o fogo traz a vida
E a vida não traz segredo
Fecha-se o ar e o sol se nega, nega-se o pão e a paz

E o amor me cega
Sete rajadas correm, somem
E uma mulher
Se entrega e se impõe ardente
Constante, serpente, vulgar

Rasga-se o sonho e o corpo sente a dor crescer
Abre-se a mente e o cego vê a luz nascer
Trava-se a guerra e o fogo faz a vida

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01/05/2006

Calles Palabras

Eu não quero definir palavras. Nem ruas. Nem saídas. Nem julgar, nem perceber. Quero achar o termo que seja tépido. Cálido. Feito de rosas entrelaçadas. O ritmo que murmure, acalante. Quero a via mais larga, os sons mais pronunciados que podem ou não ter sotaque. Quero e busco sempre a verdade. Tenha ela a forma ou a dor que esfolam. Que tira e não acrescenta. Sempre busco a rua que traz palavras verdadeiras. Horizontes reais. Verdades pulsantes. Irremediáveis.

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