02/23/2006
Dentro de uma hora
Dentro de uma hora vou estar trabalhando de novo. Vou estar abraçada por paredes coloridas e um jazz longínquo. Vou mergulhar nas idéias de estar perto. Vou relembrar que me falaste de filmes, que seguraste minha mão no cinema durante todo o filme. Vou relembrar que nos olharam de lado quando chochichávamos no escuro do cinema quase vazio. Era uma tarde de primavera. Não qualquer primavera, pois depois de alguns anos e antes de horas eu quis estar em Porto Alegre na primavera. Não sabia o porquê. E agora escuto Adriana Varela e relembro. E me lembro que quando estamos juntos eu não atento a nada. Depois desse hiato entre nossas vidas só estar faz sentido. E além de teus presentes silenciosos e de nossos olhares vararem os mesmos ventos, as mesmas janelas, cruzarem os mesmos céus, trouxe de ti a música que, sorrateiramente, me deste. E sabes, que não tenho pressa em ouvir cada uma delas. Elas me acontecem como Buenos Aires nos aconteceu, um ano antes da primavera que passei contigo. E com a mãe. Tua falta é silente. Assim como a da mãe. Engraçado que eu tenha me enganado todo esse tempo. Hoje ja não sei que pensar. Estou confusa em abismo.
Essa que vês na imagem sou eu. Mas não quero te enganar. Da minha janela eu vejo apenas estrelas. Não há rio, mar, barcos. Minha janela não tem uma cortina esvoaçante. E o vento é ralo. Os vôos já não são tão rarefeitos.
Às vezes vejo a lua, isso quando o sono não me vence. Não estou na Espanha. Ainda, mas sim o vermelho e o amarelo me perseguem, tu bem sabes. Assim espero que venhas ao meu encontro. Revestida de Espanha. Acompanhada de Adriana Varela. Lendo sobre a vida de Dalí. Sentindo tua falta. E sabendo que preciso prestar atenção. Em ti e no relógio. Dentro de uma hora estarei no aquário. Sonhando uma vida melhor. Que atravessa uma ponte molecular, que imita o corpo humano e me aproxima do hoje. E de ti. Não como sinto Espanha. Espanha eu sinto por dentro, ansio. Uma vida melhor em que dentro de uma hora eu possa te ver, e te contar que existe uma ponta de esperança. Por isso te espero. E imagino que irei te buscar. Quero te encontrar no aeroporto, dentro de uma hora.

Vení, tengo el corazón abierto para vos.
Imagem: Salvador Dali, Figura Asomada en la Ventana.
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02/22/2006
Retalhos
Não há nada de novo em mim, cara leitora. Nenhuma esperança nova. Nenhum sentimento rubro, nenhuma lembrança aterradoramente viva. Não há sábados, nem atencipações de feriados. Os sons ainda são os mesmos. As sextas-feiras são corriqueiras como o café da manhã na varanda, ao lado das tulipas murchas. Não há nada para contar, amiga. Apenas que as noites têm estado de vazio, têm estado sem graça. E até aí nada de novo, como podes ver. Até minha ausência não é nova. Me aninho em retalhos quando sumo. E tu já sabes, quando não mando sinais é por estar aninhada na frágil estrutura de retalhos. Sem retalhos é. Não é vazio. Não é estreito esse aconchego. E é tão velho. Tão familiar.
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02/18/2006
Trilha Sonora
Pra Dizer Adeus - Interpretada por Elis Regina
Adeus, vou pra não voltar
E onde quer que eu vá, sei que vou sozinha
Tão sozinha, amor, nem é bom pensar
Que eu não volto mais pelo meu caminho
Ah, pena eu não saber
Como te contar que o amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer: vem!
Eu só sei dizer: vem!
Nem que seja só pra dizer adeus
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Devolver

Vou te devolver em parcela única os amanheceres no apartamento grande. Os cafés da manhã em tua companhia e os
olhares de reencontro no aeroporto. Vou te devolver as esperas, os toques, os perfumes. Os amores. Estou te devolvendo as ausências e os suores que não foram. Te envio as febres, os avessos das lembranças, os dias mesclados. Te devolvo os passos e os tangos. Os silêncios, os pães assados de tarde para te esperar para a janta. Te devolvo as camisetas brancas lavadas e dobrados do jeito que aprendi com minha mãe. Te devolvo as flores, que uma a uma, compilaram datas e instantes de fotos e luzes. Te devolvo a paz da falta de incertezas, te devolvo a perfeição dos horários vazios, da cama pronta para espera. Te devolvo os não-redemoinhos, as perguntas não ditas, os abraços não dados. Te devolvo meus poemas escritos para ti, minhas cartas, os cartões de amor eterno. Te devolvo os sóis e os passeios intermediários. Te devolvo não-ânsias, não esperas, o não segredo. Devoluta: te devolvo.
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02/13/2006
Fevereiro Febril
Saí para a rua-tua-nua. Onde-ontem o cheiro da noite era todo mergulho em mim. Meus poros eram lagos apaixonados. Flores perdidas e encontradas em notívagas melodias de quem procura por novos.
Gramáticas. Fumei pela primeira vez em muito tempo, que foi como deixar de ser pura. A língua esteve amarga e sabor de entrega. Ao que é vil e mundano. O cigarro aquecia os dedos e me fazia dona. Entrei então em um estado de estupefação. Lívida e atávica. Eram então mornos os beijos. E o álcool era roubado de beleza e de propósito -- Fazia frio, quando voltei à rua. E o corpo rescendia para explodir em securas de beijos passados. Foi uma noite atenta. Horas lentas e carregadas de amor de penumbra e jazz mal feito. Supressos. Mandei-o embora e no dia seguinte tinha um encantamento incomum, leve rubor na face de dentro. Era tonta_de_medo_ de_ explosões. Sentia na cabeça o peso embaralhado de entregas profanas: o inverno finalmente chegara no relógio vermelho rubi. Nas horas vagas.
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02/02/2006
Dizem
Dizem que a estrutura está intacta embora a chuva teça erosões por todos os lados. Em todas as formas, nas pontas e nos meios. Dizem que o céu está azul e que a alma transparece. Dizem do frio que está inerte sob nozes e sob nós. Dizem que a península se estreita tanto que desaparece ante os olhos ousados e vadios. Dizem que o verde é verdade e cristal e não pura lente que capta e desfaz. Dizem que o olhar forte encanta, e que os lábios carnudos precipitam-se como braços procurando pelos lábios dela. Dizem que balança o corpo e esfrega as mãos por hábito, não mais por frio.
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