04/30/2006

Um pouco de voz

E,

podcast
eu? 

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Idéias compartilhadas

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En nuestra vida como en la paleta de pintor sólo hay un color que dá sentido a la vida y la arte: el color del amor.
Marc Chagall

Não espero que tenhas contado as horas. Não espero que tenhas partilhado da minha busca diurna pelas melhores palavras.

Depois de ter passeado pelo que era possível, ter polido idéias e me munido de uma coragem insana, livros e histórias, o que me restou foi mesmo meu impulso de compartilhar. De dividir contigo o que viesse primeiro na minha tela. Me dei conta, que me vieste tu, e claramente viraste tema recorrente entre um parágrafo e outro. Sobre Chagall. Sabes que ele e Paul Eluard foram amigos? Eu não optei por chegar aqui e deixar o texto me levar, mas é assim. Parto de uma idéia e ela se desprende de mim e passa a ser independente. Passa a me comandar e flutuo com Chagall pelas margens do Dvina.

Na outra margem, eu encontrei postais e rosas e azuis. E encontrei a relevância do que se transforma, do que acontece. Quando. Saí para caminhar e lá estavas de novo. Me acenando com a voz distante de ontem. E me chamando para hoje. Te evoquei. E então Chagall de novo me dizia dos sonhos e do mundo imaginário que compartilhamos. Foi definir que me fez delimitar: te escrever para te definir em mim. Entre um sonho e outro de Chagall. Entre palavras e uma cor e outra que em alternância, libertam, encontram e encantam.

Sólo a mi me era familiar aquel corazón del pueblo, poético y embotado por el silencio. Marc Chagall

Imagem de Marc Chagall. Título: Enchantement Vesperal.

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04/29/2006

Aterrador

Hoje foi de novo aterradoramente vazio. Atrozmente só memórias.

Promessas

E eu que te prometi um poema ontem. E te falei de medos e de surpresas. Eu que te ouvi atenta e serena. Eu que vivi na imagem de imaginar e rever. Eu que esperei para te encontrar num minuto furtivo e pincelado de sorrisos. Eu que vesti flores e esbocei brilho. Me atrasei.

04/27/2006

Esculpindo horas

Não cabemos na pequena cidade que são os dias. Nos escondemos nos restos e nos riscamos do mapa para não bancar desafios, e não correr riscos. Volta, atroz, o silêncio e o cômodo do ir-se levando. Ruas estreitas, sóis de maio, ventos febris. Vagamos pelas contingências e pelas horas marcadas. Alugamos quartinhos para hospedar nossa vida imaginária. Sentamos na varanda esperando pela tormenta para ver os raios que desarrumam o cenário conhecido e, sem entusiamo, anunciado. Não caibo na cidade dos dias. Quero o não esconderijo, o não saber, o mais. Quero inverter para a consciência honesta, para o esculpir das horas que se assomam intempestivas. Se é para ter pressa que seja para usufruir. Que seja para mergulhar no esculpir das horas.

04/25/2006

Maracas Bay

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Contigo eu viajei. Viajava. Foste a razao de muitas chegadas e de muitas tardes perdidas na imensidao no pensamento perdido. Foste muito mais o longinquo e o inalcancavel. Foste a passagem para um estado menos amorfo e a volta para um estado esteril. Viajei contigo quando compatilhavamos noites insones e fragmentos de passado. Tu me falavas do teu pequeno mundo dos cafes e dos saraus. E eu te contava da solidao. E eu te ouvia, exercicio sagrado de compartilhar contigo um pouco dos teus dias como foram. Tu me falavas de musicais, das ruas em ilha, do cafe escorregando por teus sentidos. Eu imaginava que na ausencia o caminho estaria livre, a estrada seria unica e nossa. Ate que chegamos ao fim. Ao fim das memorias, ao fim das conversas. Passamos a usar codigos silentes, abracos opacos. Eu ainda sento a beira da janela e escuto. Ao ver a agua, eu sinto. Brisas. Espasmos. Esfria sobre a mesa o cafe. A cancao toca no radio. Coral Egan derrama em mim insensatez. E eu escrevo para esquecer que. Escrevo para romper com o passado e esgota-lo em sua finitude, em seu complexo jogo de esconde-esconde. Solta minha mao que agora eu vou trilhar e construir a minha propria jornada. Onde nao habitam fantasmas, nao ha sombras.

Imagem Pedro Gargate, do Gargas Tropical. Titulo: Maracas Bay.

04/24/2006

A ponta, as pontas e os meios

As idas transformaram o ambiente interno, esse que chamamos de eu. As voltas refizeram as pontas, uniram os caminhos. No inicio nao fazia sentido. Depois parecia que estava claro. Quando navega-se no incerto, nao se pode esperar que os resultados sejam. Nao deixa de ser uma roleta russa. Nao deixa de ser uma descoberta lenta (e penosa) da ponta, das pontas, dos meios.

 

Quantas revolucoes por minuto? Quantos esbarroes em ombros alheios e busca de ar em outras. As imagens familiares me voltam. Ando em circulos. Pestanejo para esquecer. Uso todos os verbos intransitivos e sob o ceu de um maio que ainda nao chegou, escrevo sobre paixoes que ainda nao se revelaram.

 

Sheltering Sky. Sera que o ceu me protege? Uma vez me disseram que ha muitas almas para viver. E se em mim so cabem as almas de imagens, de palavras e sons. E se o ceu nao mais me proteger?

04/22/2006

Revisitando Piet(er)

medium_graytree.2.jpgEu exploro o cinza e a forma. Eu vejo árvores cinzas, eu vejo desenhos no teto, eu vejo elos. Eu revisito Mondrian em tua ausência. Eu recorro Portugal, para encontrar quem sabe, rabiscos, vinhedos, exatidão. Eu saltito na linha fina e uniforme deixada pelo pincel. E nos mosaicos cinzas eu procuro. E vejo que no transcorrer das horas há mais. (Tu te lembras como ela caminhava no Arsenic and Old Lace?) Ela flutuava. Como agora flutua ao meu lado a árvore cinza de Mondrian. Estou de prontidão: o cinza não faz parte do ocaso. Talvez por ser denso, por ser a cor que nos lembra a chuva. Por ter o perfume do nada. Eu também brinco. Brinco com Piet, brinco com o inesperado. Brinco ao ver em Mondrian um pouco de ti. Imagem: Gray Tree (1911), de Piet Mondrian.

04/21/2006

Lembranças

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The eye only sees what the mind is prepared to comprehend.
Henri Bergson
Eloge de L'Amour
Godard

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04/20/2006

Memória do Dia

Não há forma precisa para se construir memórias. Mas há precisão em senti-las, em tê-las conosco. Em deixarmo-nos cativar pela antecipação de uma memória. Pelo nó que une, pela troca que ultrapassa tempo, circunstâncias, geografias. E depois a memória é como um porto para o qual se pode voltar, sempre. Sem outros; fortuitamente. E então nos sentimos menos só. Por podermos guardar na memória o outro. E se é verdade mesmo que a solidão é fato e tem fio cortante, é verdade também que a memória nos acompanha. Silenciosamente e pode, como hoje, fazer sorrir. Trazer-te a mim.

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